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Por dentro da Bolsa de Valores

Investir na bolsa é comprar pedaços de empresas. Este guia mostra como pensa quem investe em valor: pagando menos do que o negócio vale e tendo paciência para esperar.

O que é investir em valor

Comprar bons negócios por menos do que valem, e esperar.

Quem compra uma ação se torna sócio de uma empresa. O investidor em valor separa preço de valor: estuda o que o negócio vale pelos seus resultados e só compra quando o preço está bem abaixo disso. Depois, tem paciência, porque o mercado oscila e pode demorar a reconhecer o que a empresa vale.

1
Escolhe uma boa empresa
Entende como ela ganha dinheiro, quanto deve e que vantagem tem sobre os concorrentes.
2
Estima quanto ela vale
É a análise fundamentalista: o valor do negócio pelos seus resultados, e não pelo preço do dia.
3
Compra com margem de segurança
Só entra quando o preço está bem abaixo do valor estimado, para se proteger de erros.
4
Espera
O mercado oscila, e o preço tende, com o tempo, a se aproximar do valor do negócio.

As cinco perguntas do investidor

Antes de comprar uma ação, quem investe em valor procura responder a cinco perguntas. Elas mostram como esse investidor pensa.

1
O que estou comprando?
Um pedaço de uma empresa, e não um papel que sobe e desce. Quem compra uma ação se torna sócio de um negócio que vende, dá lucro, paga dívidas e distribui parte do resultado. Por isso o investidor em valor começa estudando a empresa: o que ela vende, como ganha dinheiro, quanto deve e se tem vantagem sobre os concorrentes. O preço vem depois.
2
De onde vem o retorno?
De três fontes: do crescimento do lucro da empresa, dos dividendos que ela distribui e da aproximação do preço ao valor do negócio, quando o mercado reconhece o que ele vale. Os dividendos reinvestidos ao longo de muitos anos fazem grande diferença. Diferente de uma empresa fechada, aqui o negócio já gera lucro, e o retorno vai aparecendo durante o caminho.
3
Quanto estou pagando, e quanto vale?
É a pergunta central do investidor em valor. Preço é o que o mercado pede hoje. Valor é o que o negócio vale pelos seus resultados. Graham ensinou a comprar só quando o preço está bem abaixo do valor estimado. Essa diferença é a margem de segurança: ela protege contra erros de cálculo e imprevistos. Como o futuro é incerto, quanto mais frágil o negócio, maior a margem que o investidor exige.
4
Quanto tempo preciso esperar, e quando eu saio?
Em geral, anos. O preço das ações oscila todos os dias, e o mercado pode ignorar uma boa empresa por muito tempo. Ao contrário de uma empresa fechada, a ação pode ser vendida no pregão, mas ter liquidez não é ter obrigação de vender. O investidor em valor vende quando o preço passa do valor, quando a empresa piora ou quando encontra uma oportunidade melhor. Vender por medo, no meio de uma queda, é um dos erros mais comuns.
5
O que pode dar errado?
Pagar caro demais por uma boa empresa, errar a estimativa do valor, ou a empresa piorar, perder competitividade ou se endividar demais. O mercado também pode demorar a reconhecer o valor. As ações oscilam, inclusive para baixo, e o investidor pode perder parte do capital, às vezes por muito tempo. O maior risco costuma ser o comportamental: vender com medo na queda ou comprar com euforia na alta. Diversificar e exigir margem de segurança reduz o risco, mas não o elimina.

Histórias de quem investiu em valor

Três histórias reais, de épocas e países diferentes, mostram o que a disciplina em valor pode render. São exceções celebradas, e não o resultado típico: a maioria dos investidores não alcança esses números, e nenhum caminho elimina o risco.

Benjamin Graham: onde tudo começou

O que mostra: O value investing nasceu de uma ideia simples: tratar a ação como parte de um negócio e comprar com folga entre o preço e o valor.

1926
Forma a sociedade Graham-Newman, que administrou até 1956. Segundo uma biografia da Rivkin, o retorno médio foi de 17% ao ano.
1934
Publica, com David Dodd, Security Analysis, um dos textos fundadores do value investing.
1949
Publica The Intelligent Investor, que apresenta a margem de segurança e o Sr. Mercado, o sócio de humor instável que oferece preços todos os dias.
Anos 1950
Warren Buffett estuda com ele em Columbia e depois trabalha na Graham-Newman.
Fontes: Wikipedia · Rivkin · Trustnet

Warren Buffett e a Berkshire Hathaway: seis décadas de paciência

O que mostra: Seis décadas de disciplina renderam muito mais que o índice, mas a vantagem encolheu à medida que a empresa cresceu: nem o melhor investidor vence o mercado em todos os períodos.

1965
Buffett assume o controle da Berkshire Hathaway.
1965–2023
Segundo a carta aos acionistas, o ganho médio foi de 19,8% ao ano, contra 10,2% do índice S&P 500.
Em 60 anos
A ação superou o índice em 40 dos 60 anos, segundo a Statista.
Desde 2003
O retorno foi de cerca de 10,5% ao ano, contra 11,1% do índice. Toda a vantagem veio antes de 2003, quando a empresa era bem menor.

Luiz Barsi: dividendos e paciência no Brasil

O que mostra: Paciência, dividendos reinvestidos e compras em momentos de crise, ao longo de décadas, podem construir patrimônio. Mas exigem muito tempo, disciplina e estômago para as quedas.

Infância
Filho de imigrantes, perde o pai muito cedo e trabalha desde criança como engraxate e vendedor de balas.
Anos 1970
Começa a investir na bolsa. Compra poucas ações de uma estatal de energia e reinveste os dividendos até chegar a 100 mil ações.
Estratégia
Escolhe empresas de setores duradouros, como alimentos, saneamento, energia, mineração e finanças, e aproveita crises para comprar a preços descontados.
Hoje
É considerado o maior investidor pessoa física da bolsa brasileira, com fortuna estimada em cerca de R$ 2 bilhões. As estimativas variam entre as fontes.

A margem de segurança na prática

Um exemplo com números fictícios, para entender por que pagar menos protege, mesmo quando a estimativa erra.

Um investidor estima que uma empresa vale R$ 100 milhões. O mercado pede R$ 60 milhões, uma margem de segurança de 40%. Outro investidor paga os R$ 100 milhões, sem margem. Anos depois, o valor real da empresa se mostra diferente da estimativa.

Valor real da empresa
Pagou R$ 60 milhões (margem de 40%)
Pagou R$ 100 milhões (sem margem)
R$ 100 milhões (a estimativa estava certa)
+67%
0%
R$ 70 milhões (a estimativa estava 30% alta)
+17%
−30%
R$ 40 milhões (o negócio piorou)
−33%
−60%

Números fictícios e simplificados, sem dividendos, impostos ou custos. Não representam o resultado de nenhuma empresa nem prometem retorno.

Palavras que você vai ouvir

Ação
Pedaço do capital de uma empresa listada em bolsa. Quem a compra se torna sócio.
Dividendos
Parte do lucro que a empresa distribui aos acionistas.
Valor intrínseco
Quanto o negócio vale pelos seus resultados e perspectivas, independentemente do preço do dia.
Margem de segurança
A diferença entre o valor estimado e o preço pago. Protege contra erros de cálculo e imprevistos.
Análise fundamentalista
Estudo da empresa, dos seus números e do seu setor, para estimar o que ela vale.
Preço/Lucro (P/L)
Quanto o mercado paga por cada real de lucro da empresa. Serve para comparar empresas.
Sr. Mercado
Personagem criado por Graham: um sócio de humor instável que todo dia oferece um preço.
Volatilidade
O quanto o preço de um ativo oscila. Não é o mesmo que risco de perder dinheiro, mas pode levar a decisões ruins.
Liquidez
A facilidade de vender um ativo rapidamente, sem mudar o preço.
Diversificação
Dividir o dinheiro entre várias empresas e setores, para que um problema isolado pese menos.

Quer entender melhor como pensamos o mercado?

Leia o Valor Intrínseco, a coluna da Westwood no Portal RIC, ou conheça a nossa abordagem em Bolsa de Valores.

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